Um sofá preto, desses que os braços são altos demais para deitar e baixos demais para sentar.
Ele tentava se manter confortavel, mas afinal, qual o nivel de conforto se pode ter em um lugar daqueles?
O jornal meio amassado descansava sobre as pernas vestidas de calças pretas, como o sofá.
Na cabeça, uns fios, poucos mas bem penteados.
Levantou-se devagar, foi até a lanchonete, pediu um café e um pudim.
Café e pudim, que combinação inusitada pra um dia como o de hoje e um sofá tão preto.
Passou pela rodinha de garotos, fez uma piada e tomou um gole de café, fazendo uma cara de cinismo. Não consegui ouvir a piada, mas devia ser sobre o pudim.
A vida é engraçada.
O modo como nos adaptamos.
À alegria, à tristeza, à situação. Nos adaptamos.
De alguma forma, percebi que ele estava adaptado à sua condição e não acomodado à ela.
Esta ai uma grandíssima diferença na vida.
A distancia entre se adaptar e acomodar-se. Quem percebe essa sutil diferença pode permanecer no mesmo lugar, sem se sentir ignorado ou inútil.
É assim como o sofá preto. Desconfortável demais para deitar, mas o suficiente para sentar.